Ele faz cessar as guerras
Salmos 46:9
"Ele faz cessar as guerras até os confins da terra; quebra o arco e corta a lança; queima os carros no fogo".
Analisando a passagem sob a ótica do conflito individual, o texto deixa de ser apenas uma promessa geopolítica e se torna uma poderosa metáfora para a pacificação da mente e das emoções.
Tiago, em sua epístola, nos indaga dizendo:
"De onde vêm as guerras e pelejas entre vós?
Ele mesmo responde, em sua encisiva retórica:
"... Porventura não vêm disto, a saber, dos vossos deleites, que nos vossos membros guerreiam?...
Cobiçais, e nada tendes; matais, e sois invejosos, e nada podeis alcançar; combateis e guerreais, e nada tendes, porque não pedis.
Pedis, e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites.
Tiago 4.1
Se a guerra no indivíduo nasce do medo, da frustração e do "sequestro" dos instintos, a cessação dessa guerra representa o restabelecimento da ordem interna. Podemos analisar essa passagem através de três chaves psicológicas e existenciais:
1. O Desarmamento dos Mecanismos de Defesa
("Quebra o arco e corta a lança")
Na psicologia, o arco e a lança correspondem às nossas armas de ataque e projeção — o sarcasmo, a agressividade verbal, o julgamento implacável e a necessidade de estar sempre certo para se proteger.
Quando a passagem diz que Ele "quebra" e "corta" essas armas, significa desarmar o ego.
É o momento em que o indivíduo confia o suficiente para baixar a guarda, abrindo mão da necessidade de atacar o outro para defender suas próprias feridas e inseguranças.
2. A Destruição das Estruturas de Orgulho e Rigidez
("Queima os carros no fogo")
Os carros de guerra antigos eram as carruagens de combate: símbolos de poder, controle, autossuficiência e força bruta.
No antigo Egito, faraó gabava-se de seus milhares de carros de batalha, que dava vantagens nas guerras.
No plano interno, os "carros" representam as estruturas rígidas que construímos para nos proteger neles, e dominar os outros (o orgulho, o desejo de controle absoluto e o isolamento emocional).
O fogo, que na tradição é o símbolo da transformação e purificação, destrói essa falsa sensação de controle, forçando o indivíduo a encontrar a paz na vulnerabilidade e na entrega, e não na força.
"Queimar os carros no fogo", remonta a ideia de que estamos abrasados em nossa ira ou cólera, e será nesta fagulha de autodestruição, que os nossos carros queimarão!
3. A Substituição do Medo pela Presença Transcedente
A neurociência mostra que o cérebro só sai do modo de "guerra" (luta ou fuga) quando se sente profundamente seguro. Logo após o versículo sobre cessar as guerras, o Salmo 46 traz uma das frases mais famosas da Bíblia:
"Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus".
O "Aquietai-vos": É o comando para silenciar a amígdala cerebral hiperativa, acalmar os pensamentos ansiosos e interromper o ciclo de reatividade.
O "Saber": Sob o aspecto psicológico, a fé ou a conexão com o sagrado atua como o pacificador definitivo. Ao transferir o peso do controle para uma força maior (Deus), o indivíduo elimina a raiz da sua guerra interna: o medo da escassez, da rejeição e da morte.
Em resumo, sob o aspecto individual, a passagem descreve o processo de pacificação interior. As guerras externas acabam quando o indivíduo, tocado por uma experiência de paz e segurança superior, aceita desmantelar seu arsenal de defesas e encontra o silêncio e o repouso da mente.
A guerra em um indivíduo
O conflito interno ou a manifestação da agressividade — nasce do confronto entre os nossos instintos biológicos e as pressões psicológicas e sociais que enfrentamos. Assim como no cenário geopolítico, a violência e a hostilidade no ser humano não surgem do nada; elas são o resultado de um acúmulo de tensões, medos e necessidades não atendidas.
Grandes pensadores da psicologia, neurociência e filosofia explicam que esse "estado de guerra" interno e externo nasce a partir dos seguintes fatores:
1. A Perspectiva Psicológica
(O Conflito Interno)
Frustração e Medo:
O psicólogo John Dollard formulou a hipótese de que a agressividade é sempre uma consequência da frustração. Quando um indivíduo é impedido de alcançar um objetivo ou se sente profundamente ameaçado (seja fisicamente, economicamente ou em seu ego), o medo se transforma em hostilidade defensiva.
Projeção de Sombras:
Carl Jung explicava que a guerra externa muitas vezes começa porque os indivíduos não conseguem lidar com seus próprios defeitos, traumas e frustrações. Em vez de resolver esses conflitos internamente, as pessoas projetam essa "sombra" no outro, transformando o irmão, vizinho, o colega ou um grupo social no "inimigo".
2. A Perspectiva Biológica e Neurocientífica
(O Cérebro)
O Sequestro da Amígdala:
Diante de um estresse extremo ou de uma humilhação, a amígdala (a parte do cérebro responsável pelas emoções e pela sobrevivência) pode "Sequestrar" a lógica do córtex pré-frontal. O indivíduo entra em modo de luta ou fuga, onde a empatia é desligada para priorizar a autodefesa.
Instinto de Território e Recursos: Biologicamente, ainda carregamos heranças evolutivas de disputa por status, recursos e proteção do nosso grupo (tribalismo). Quando o ambiente é percebido como escasso ou hostil, o instinto de competição violenta pode ser ativado.
3. O Processo de Desumanização
(A Faísca para a Ação)
Para que a guerra saia da mente e vire uma ação contra outro ser humano, o indivíduo passa por um processo psicológico chamado desumanização. É mais fácil agredir alguém quando deixamos de vê-lo como uma pessoa com sentimentos e passamos a enxergá-lo apenas como uma ameaça, um obstáculo ou um estereótipo.
As guerras nascem essencialmente quando a diplomacia falha em resolver uma crise e uma das partes decide que os benefícios de lutar superam os custos devastadores do conflito. Historicamente, não existe um motivo único, mas sim uma combinação de fatores estruturais, psicológicos e políticos que transformam tensões em combates armados.
Os principais fatores que dão origem aos conflitos mundiais, civis e regionais podem ser divididos em causas estruturais e eventos gatilhos:
1. Causas Estruturais
(As Raízes)
Disputas por Recursos, Posições e Território:
A busca por terras férteis, fontes de energia (grupos de indivíduos), água ou rotas comerciais estratégicas é um dos motivos mais antigos da humanidade.
Nacionalismo Extremo e Imperialismo:
O desejo de expansão territorial, a dominação de outros povos ou o sentimento de superioridade cultural e ressentimentos históricos (como o que permitiu a ascensão do nazismo após a Primeira Guerra) geram rivalidades profundas.
Quebra de Confiança e Incerteza:
Segundo análises de relações internacionais, conflitos ocorrem quando governos são incertos ou tendenciosos sobre o real poder militar de seus vizinhos, ou quando um lado não é considerado confiável para cumprir acordos de paz.
2. O Estopim (Os Gatilhos)
Embora as causas estruturais levem anos para se acumular, a guerra geralmente precisa de um acontecimento imediato para começar. Na história, esses gatilhos variam de ataques diretos a acidentes diplomáticos:
O assassinato do arquiduque Franz Ferdinand em 1914 foi o estopim para a Primeira Guerra Mundial.
A invasão alemã da Polônia em 1939 desencadeou as declarações de guerra que iniciaram a Segunda Guerra Mundial.
A repressão violenta a protestos pacíficos deu origem a guerras civis modernas, como a da Síria, ligada à Primavera Árabe.
Para entender melhor a dinâmica de como os confrontos se desenvolvem e funcionam nos tempos modernos, assista à explicação detalhada deste especialista:
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