quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A perda da realidade na neurose e na psicose – Freud. Volume XIX

Comentário Acadêmico do caso. Analogia das diferenças patológicas.

A PERDA DA REALIDADE NA NEUROSE E NA PSICOSE
Freud, S., 1924

Na neurose o ego suprime uma parte do id devido a sua dependência da realidade que teoricamente seria mantida, o que nossa observação contradiz.

Na psicose o ego a serviço do id, afasta um fragmento da realidade (o incômodo) – há perda desta.

Neurose: na primeira etapa ego se dispõe à repressão de um impulso do id, na segunda etapa o fragmento de realidade ligada aquele este será modificado, como uma compensação, uma reação à repressão, ou uma falha desta.

Podemos fazer uma analogia com a psicose: na sua primeira etapa o ego seria arrastado para longe da realidade, e na segunda haveria uma reparação do dano, restabelecendo as relações com a realidade com o id, ou seja, é criada uma nova realidade que não envolva frustrações do id.
Nos dois casos percebemos a rebeldia, ou a incapacidade do id em aceitar, e se adaptar as exigências da realidade. Na neurose um fragmento da realidade é evitado por uma espécie de fuga, ou seja, a realidade é ignorada, e na psicose ela é repudiada e substituída.

Nos dois casos o impulso reprimido deseja vir à consciência. Quando isto acontece na neurose há a geração de ansiedade, e ocorre uma conciliação, mas não uma satisfação completa.

Na psicose ocorrem alucinações e delírios para a transformação da realidade. Este processo é dinâmico, pois o indivíduo vai tendo novas percepções e recorrendo a percepções antigas que vão sendo modificadas e gerando ansiedade.
Em ambos a segunda etapa é mal sucedida, pois, na neurose a pulsão reprimida é incapaz de conseguir um substituto completo, e na psicose a representação da realidade não pode ser remodelada satisfatoriamente.

A neurose geralmente se contenta em evitar o fragmento de realidade, mesmo havendo o desejo de substituir uma realidade desagradável por outra, mais de acordo com seus desejos, o que é possibilitado pela existência de um mundo de fantasia, ligado a um passado real mais satisfatório (fantasia: domínio que ficou separado do mundo externo real na época de introdução do princípio da realidade, tornando-se uma reserva para libertar-se das exigências da vida, sendo frouxamente ligado ao ego). Esta fantasia, contudo, é como um brinquedo, ligado a um fragmento de realidade ao qual damos especial importância, é o que chamamos de simbólico.
Na psicose também recorre às fantasias, porém o delírio e as alucinações tomam o lugar da realidade.
Assim nas duas há perda da realidade, mas elas são diferenciadas pela maneira como esta é substituída.
Interpretação
Lygya Vanpré Humberg
Professora de Psicologia
Uninove - Barra Funda - SP

SUBJETIVIDADE SEM PSICOLOGIA 3 - por João José R. L. Almeida

Introdução

O fracasso epistemológico da psicanálise poderia, entretanto, converter-se numa proposição positiva se abandonássemos a pretensão de legitimação científica e deixássemos de lado a multiplicação de entidades metafísicas explicativas. Neste caso, a psicanálise deveria ater-se somente à sua tradição, a clínica do inconsciente (dos atos inconscientes), sem perder-se nas filosofias. Bastaria, para isto, dispor de uma carga metafísica suficientemente mínima para dar conta do setting analítico. Como isto poderia ser feito? Sabemos que a clínica psicanálitica se estabelece com a transferência. Na realidade, o que se chama de “transferência” é, usando outro modo de expressão, um jogo que se resume por uma “regra fundamental”. A “regra fundamental” é o componente constitucional da psicanálise. É o penhor da sua tradição. E o que se chama de “fundamental” na psicanálise é a fala, ou a relação, possível e necessária, entre o analisando e o analista. Pela regra fundamental da psicanálise, o analisando deve circunscrever-se a tudo falar sem nada ocultar por motivos de vergonha, medo ou crítica. É o que se denomina na tradição psicanalítica como “associação livre”. E pelo lado do analista, este não pode fazer nada que possa criar obstáculos à livre associação. Pelo contrário, a sua única posição possível é a de favorecer o livre fluxo da fala.
- Por tais regras, como se pode jogar o jogo?
Entrariam então, pela psicopatologia minimalista, sete formas de atitudes proposicionais, sete formas de ação psicopatológica, correspondentes a sete diferentes figuras que fixam as reações do analisando na clínica psicanalítica. Estas são:
(a) Histeria – o outro é incapaz de atender à minha demanda.
(b) Neurose Obsessiva – sou incapaz de atender à demanda do outro.
(c) Perversão – finjo atender à demanda do outro.
(d) Depressão – não faço demandas nem as acolho.
(e) Mania – sou capaz de atender à demanda do outro.
(f) Paranóia – o outro demanda sem que eu haja demandado.
(g) Esquizofrenia – constituo o outro a quem demando.

Como jogo de linguagem, restrito somente a regras mínimas com o mínimo de metafísica, a psicanálise não seria mais um “saber sobre”, não teria mais por que multiplicar-se, em tendência infinita, na forma de distintos subtipos teóricos. Sendo nada mais que um “saber-fazer” ou um “saber-como”, qualquer subtipo teórico da psicanálise, estando de acordo com a “regra fundamental”, estaria imediatamente de acordo com a metapsicologia minimalista.
A explicação teórica desta metapsicologia, a sua metafísica, seria a diferença entre as distintas escolas. Porém, sobre a metafísica, assim como sobre as “ilusões transcendentais” que critica Kant em sua dialética, é ocioso discutir. Restringindo-se a não mais que uma atividade lingüística, um determinado jogo de linguagem com regras bem estabelecidas pela tradição, a psicanálise mater-se-ia como clínica centrada na fala, e a sua teoria, circunscrita meramente à prática da clínica, seria informada por uma concepção pragmática da linguagem, que concebe a fala como ação e dispensa qualquer tipo de concepção de verdade. A metapsicologia trataria somente das atitudes proposicionais como ações inconscientes. O propósito do psicanalista seria, neste sentido, fazer fracassar os atos de fala conflitivos do analisando. A cura, fim da clínica, viria por acréscimo, não por necessidade.
Bibliografia
ALMEIDA, João José R. L (2004). “A Compulsão à Linguagem na Psicanálise: Teoria Lacaniana e Psicanálise Pragmática”. Campinas, Tese de Doutorado, IFCH- Unicamp.
(1915). “O Inconsciente”. [Das Unbewusste, G.W., 10]. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV. Rio de Janeiro, Imago, 1974.
KIMMERLE, Gerd (2000). Denegação e Retorno. Uma Leitura Metodológica de Para Além do Princípio de Prazer, de Freud. Piracicaba, Editora Unimep. LACAN, Jacques (1945). “Le Temps Logique et L’Assertion de Certitude Antecipée, Un Nouveau Sophisme. In: Écrits. Paris, Ed. du Seuil, 1966, pp. 197-213.

SUBJETIVIDADE SEM PSICOLOGIA 2 - por João José R. L. Almeida

Introdução

Um dos maiores problemas filosóficos da psicanálise tem sido o de definir o estatuto da sua teoria, o que envolve esclarecer e justificar seu conceito central, o de inconsciente. Isso pode ser demonstrado nas psicanálises de Freud e de Lacan. Para executar esta tarefa, Freud concebeu sua teoria nos parâmetros de uma ciência natural, adotou uma concepção representativa de linguagem e constituiu uma metapsicologia afigurada em um espaço lógico. A espacialização do inconsciente, porém, isto é, a sua descrição topográfica e vazada em termos de propriedades e relações, obriga à validação da teoria dentro de normas que a psicanálise não pode, simplesmente, cumprir. Além disso, dirige a clínica ao encontro de verdades pontuais e causais que tampouco se verificam. Lacan, no seu retorno a Freud, evitou incorrer no mesmo tipo de confusão conceitual, temporalizando o inconsciente. O tempo lógico é fundamental não só para a clínica lacaniana, é também decisivo para todos os seus conceitos e, em especial, para o de inconsciente. Não obstante, uma parafernália lingüístico-estrutural, entronizada em
posto de honra em suas formulações, convidou a metafísica a regressar em outro patamar do edifício, agora não mais pelo conteúdo, mas pela forma pelas quais foram incorporados os seus conceitos temporalizados e concebida a linguagem. Discutir, sob esta ótica, as conseqüências clínicas e epistemológicas de um e de outro caso, resulta no projeto de investigar a possibilidade de uma psicanálise dotada de uma metapsicologia minimalista. O Naturalismo de Freud Freud, como teórico, cingiu-se de um pressuposto inarredável no decorrer de todos os seus textos: explicar as causas do comportamento irracional e dos sintomas psíquicos, inapreensíveis pela simples neurofisiologia, mediante o único método de composição de conceitos que lhe era possível aventar.
A Freud, seguidor fiel da Escola de Helmholtz (cf. Amacher, 1965), nunca ocorreu formular teorias sobre fatos psicológicos pelo seu aspecto compreensivo, interpretativo ou como descrição contingente do sentido de fatos singulares para os quais não é possível formular leis. Uma possibilidade perfeitamente factível à época do nascimento da psicanálise, já que o texto fundamental do kantiano Wilhelm Dilthey sobre a especificidade das ciências compreensivas frente às explicativas, e sua particular inspiração em Stuart Mill para defender, contra Comte, a cientificidade da psicologia, foi publicado em 1883 (cf. Dilthey, 1883). Os textos de Dilthey estavam não somente disponíveis para a cultura acadêmica alemã da época, como suas idéias eram perfeitamente operantes, no âmbito da filosofia, nos debates epistemológicos acerca da abordagem de fenômenos tipicamente mentais. O pressuposto naturalista foi, portanto, para a nascente psicanálise, assim como para a nascente psicologia alemã em geral, com Fechner e com Wundt, uma surda certeza, um ponto de partida incontestável e um apoio sem o qual, imagina-se, a disciplina não entraria na posse de uma legitimidade teórica e de uma credibilidade acadêmica urgentes e necessárias ao seu interesse para as demais ciências.
O texto Das Interesse an der Psychoanalyse (cf. Freud, 1913) é sintomático desta tentativa de afirmação de legitimidade pela via naturalista. Não há concessões neste ponto. Seguindo o mesmo caminho metodológico proposto por Herman Helmholtz e Emil du Bois-Raymond, e seguido por Ernst Brücke, Theodor Meynert e Sigmund Exner na medicina da mente, Freud estava imbuído do santo fervor de que, para ele, “não há outra finalidade senão a de traduzir em teoria os resultados da observação” (Freud, 1915, p. 218). Ao final de sua vida, Freud ainda avaliava que “os ensinamentos da psicanálise baseiam-se em um número incalculável de observações e experiências” (Freud, 1938, p. 168). Foi a aplicação do método naturalista que conduziu Freud ao entusiasmo arquimédico e à suposição de haver trazido à luz para a humanidade uma descoberta fundamental: o inconsciente. Nas primeiras páginas do artigo metapsicológico de 1915 constatamos de que modo se comprova a imperiosa necessidade do conceito (cf., idem, pp. 192-197):

(a) Os dados da consciência apresentam lacunas a serem explicadas;
(b) Uma apreensão maior do significado das coisas constitui motivo perfeitamente justificável para ir além dos limites da experiência direta;
(c) Os estados psíquicos inconscientes permanecem em estado de latência, mas interferem ativamente no comportamento consciente;
(d) O sistema inconsciente desfruta de plena autonomia em relação ao sistema consciente.

A descoberta e a prova científica da existência de um sistema independente da vida mental, com dinâmica, economia e topografia próprias, funda a psicanálise como uma nova disciplina com uma nova constribuição teórica e clínica. Munida de uma revelação cuja importância humana é comparável à revolução copernicana e à revelação darwiniana (Freud, 1917, p. 11), não é sem razão supor para a psicanálise uma inegável relevância frente às demais disciplinas já bem estabelecidas. Assim postos os termos do argumento, revela-se nitidamente o interesse que a matéria da sua teoria despertaria para a comunidade acadêmica. A reivindicação de um lugar de honra no panteão das ciências é, diante disso, uma conseqüência natural.
Bibliografia
ALMEIDA, João José R. L (2004). “A Compulsão à Linguagem na Psicanálise: Teoria Lacaniana e Psicanálise Pragmática”. Campinas, Tese de Doutorado, IFCH- Unicamp.
Schriften, Band I. Stuttgart, B. G. Teubner Verlagsgeselschaft, 1990. FORRESTER, John (1980). Language and the Origins of Psychoanalysis. London, MacMillan Press. FREUD, Sigmund (1891). Zur Auffassung der Aphasien. Frankfurt, Fischer Taschenbuch Verlag, 1993. _______________ (1893). “Quelques Considérations Pour Une Étude Comparative des Paralysies Motrices Organiques et Hystériques”. In: Gesammelte Werke, Band I, Frankfurt a. M. Fischer Verlag, 1987. _______________ (1895). “Projeto de Uma Psicologia”. In: Notas a Projeto de uma Psicologia: As Origens Utilitaristas da Psicanálise. Tradução de Osmyr F. Gabbi Jr. Rio de Janeiro, Imago, 2003, pp. 171-260. _______________ (1900). A Interpretação dos Sonhos, v. II. [Die Traumdeutung, G.W.,3].

SUBJETIVIDADE SEM PSICOLOGIA - por João José R. L. Almeida


Apresentação
Desde 1956, portanto há quase meio século, permanece sem resposta a pergunta que Georges Canguilhem dirige à psicologia: “dizei-me aonde vais para que eu saiba o que sois?” (1958, p. 381). Mas o argumento que aquece, prepara e apresenta a pergunta lembra um incômodo ainda mais antigo. Quase trinta anos antes, em 1928, outro não menos brilhante escritor e crítico, Georges Politzer (cf. 1998), derramava suas angústias a respeito da Gestalt, do behaviorismo e da psicanálise, e propunha uma psicologia concreta – antes de desistir totalmente da empresa dois anos depois. Não é uma coincidência fortuita que ambos desemboquem na crítica ao estatuto científico das várias psicologias, já que as marcas das fontes kantianas estão presentes nos dois lugares. Se a psicologia situa-se no âmbito da antropologia, ela não pode senão fazer descrições. Apoiando-se na mesma base, Canguilhem, no entanto, não postula uma solução própria, à diferença de Politzer não faz o papel do construtor, mas filosofa com o martelo. Seu texto, mais especificamente, critica a suposição de haver uma unidade teórica essencial costurando a colcha de retalhos das várias espécies de psicologia; unidade postulada por Daniel Lagache como uma “teoria geral da conduta” (cf. Lagache, 1949). A variedade de definições do quefazer psicológico depende sempre, segundo o autor, de uma retaguarda filosófica, e a suposta unidade não seria muito mais que um pacto de coexistência pacífica. Se a psicologia pudesse definir-se como teoria da conduta, como queria Lagache, ela necessariamente também deveria estar de posse de uma idéia do “que é o homem”. Basta com que nos perguntemos que conduta seria essa para sabermos que somente uma idéia de “homem” poderia diferenciar a conduta humana da animal. Entretanto, a idéia de homem não poderia ser formulada pela própria teoria da conduta humana sem incorrer em petição de princípio. A psicologia teria que buscar a sua matéria prima em outro lugar: na filosofia. A história da psicologia se confunde, por conseguinte, com a variedade da história da filosofia e a diversidade das ciências. Uma história como esta descortina, irremediavelmente, uma multiplicidade de orientações. Neste intervalo de tempo, diz o médico e filósofo, a psicologia foi vista como ciência natural, como ciência da subjetividade (física do sentido externo, ciência do sentido interno e ciência do sentido íntimo) e como ciência das reações e do comportamento. Em conclusão, dada a mixórdia epistemológica, o
estatuto da psicologia permanece mal definido tanto do lado das ciências como do lado das técnicas. Em quase meio século de existência, muitos acorreram à crítica de Canguilhem para buscar refúgio na ironia do seu conselho de orientação: um psicólogo, se saísse do Instituto de Psicologia, na Sorbonne, pela Rue Saint-Jacques, poderia subir ou descer. Se subisse, chegaria ao Pantheon, que é o conservatório de alguns grandes homens, e se descesse, daria na Delegacia de Polícia. Os que se identificaram ao ironista, pretendiam eximir-se de serem confundidos com os metafísicos da vida interior ou com os subservientes da instrumentalização da conduta. Em particular, o valhacouto da Rue Saint-Jacques serviu também para Jacques Lacan (1966, p. 859) e para Jean-Claude Milner (1966). A teoria lacaniana apresentou-se como candidata a aproximar-se do Pantheon, pois justamente havia realizado uma poda razoável na profusa ramificação metafísica da psicanálise. Penso, particularmente, que a pergunta de Canguilhem à psicologia persevera porque a metafísica tem um engenho perspicaz; oculta-se em lugares realmente insuspeitáveis, engasta-se firmemente aos conceitos e multiplica-se de maneira imponderável.
A metafísica parece ser, de fato, um problema crônico. Pode ser divisada até mesmo nas figuras psicopatológicas do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana - DSM-IV (2000), que pretende haver ressecado os problemas filosóficos oriundos da psicologia pela mera descrição empírica dos sintomas na forma de “transtornos” (cf. Sass, 1994). Neste projeto de pesquisa, pretendo colocar a filosofia de volta ao seu serviço terapêutico, que é a análise, a crítica e a dissolução de dificuldades conceituais, e contribuir modestamente com a psicologia e a psiquiatria dinâmica mediante o exame da psicanálise e suas incrustações metafísicas. A crítica da metapsicologia psicanalítica pode resultar na dissolução das figuras colocam a linguagem da clínica em cativeiro. Wittgenstein disse: “Uma figura nos havia prendido. E não podíamos escapar, pois ela residia em nossa linguagem, e esta parecia repeti-la inexoravelmente para nós” (1958, § 115). Pretendo, deste modo, investigar as formações conceituais confusas envolvidas na definição do conceito central da psicanálise, o de inconsciente, nas teorias de Freud e de Lacan, para demonstrar que a multiplicação de teorias, em clínica, põe obstáculos à sua própria prática.
O que chamo de confusão conceitual é a mistura de atividades oriundas de práticas diferentes. No caso da psicanálise, nosso objeto terapêutico e modelo de investigação, mostrando as dificuldades criadas à metapsicologia pelos interesses de legitimação científica. Este é um projeto de investigação de prazo médio a longo, porque a crítica dos fundamentos filosóficos da psicanálise inspira também, a seu modo, uma crítica filosófica da psicologia e dos modelos teórico-clínicos da psiquiatria, posto não só que seus objetos de trabalho e seus supostos têm muitas interseções, mesmo considerando os diferentes e às vezes conflitivos métodos de trabalho, mas também porque nessas disciplinas ainda reina grande obscuridade a respeito da dicotomia mente/corpo. Não raro a psicologia e a psiquiatria também pressupõem a introspecção, a vida interior, o abstracionismo, o formalismo ou o realismo dos fatos psicológicos, não raro ambas as disciplinas perdem-se na busca de uma fronteira entre o orgânico e o mental, não raro elas se ofuscam numa epistemologia opaca. Cumpre esclarecer igualmente que o objeto desta pesquisa não é a temporalização do inconsciente, como aqui estou denominando o procedimenro teórico de Lacan.
O título deste projeto de pesquisa indica, pela expressão, os efeitos filosóficos que uma forma de metapsicologia impõe sobre as teorias psicanalíticas.
Bibliografia ALMEIDA, João José R. L (2004). “A Compulsão à Linguagem na Psicanálise: Teoria Lacaniana e Psicanálise Pragmática”. Campinas, Tese de Doutorado, IFCH- Unicamp. AMACHER, Peter (1965). “Freud’s Neurological Education and its Influence on Psychoanalytic Theory”. In: Psychological Issues 4 : 4. BORCH-JACOBSEN, Mikkel (1990). Lacan, Le Maître Absolu. Paris, Flammarion. BUTLER, Judith P. (1993). Subjects of Desire: Hegelian Reflections in Twentieth-Century France. New York, Columbia U. Press, 1987.
fonte:
Projeto de Pesquisa
João José R. L. Almeida

terça-feira, 29 de setembro de 2009

FISIOLOGIA - GUYTON - CAPÍTULO 39



Princípios Físicos das Trocas Gasosas; Difusão de Oxigênio e
de Dióxido de Carbono Através da Membrana Respiratória

Após a ventilação dos alvéolos com ar fresco, a próxima etapa do processo respiratório consiste na difusão do oxigênio dos alvéolos para o sangue pulmonar e do dióxido de carbono
na direção oposta. O processo de difusão consiste simplesmente na movimentação aleatória das moléculas que se entrecruzam nas duas direções através da membrana respiratória. Todavia,
em fisiologia respiratória, não se deve considerar tão-somente o mecanismo básico pelo qual ocorre à difusão, mas também a velocidade com que ela se dá. Este é um problema muito
mais complexo, que exige compreensão mais profunda da física da difusão e da troca gasosa.

FÍSICA DA DIFUSÃO E PRESSÕES GASOSAS
BASE MOLECULAR DA DIFUSÃO GASOSA

Todos os gases de interesse em fisiologia respiratória são moléculas simples que são livres para se movimentar entre si, constituindo o processo denominado "difusão". Esse processo também se aplica aos gases dissolvidos nos líquidos e nos tecidos do organismo.
Todavia, para que ocorra difusão, deve haver uma fonte de energia, que provém do movimento cinético das próprias moléculas. Isto é, exceto na temperatura do zero absoluto, todas as moléculas de qualquer tipo de matéria estão submetidas continuamente a algum movimento. Para as moléculas livres que não estão fisicamente ligadas a outras, isso significa movimento linear em alta velocidade até que elas colidam com outras. A seguir, desviam-se para novas direções e continuam a colidir com outras moléculas. Dessa maneira, as moléculas movem-se rapidamente entre si.
Difusão efetiva de um gás em uma direção - efeito do gradiente de concentração. Se uma câmara de gás ou uma solução tiverem concentração elevada de determinado gás em uma das extremidades da câmara, com baixas concentrações na outra extremidade, difusão efetiva do gás ocorrerá da área de alta concentração para área de baixa concentração. A razão disso é óbvia: existem simplesmente muito mais moléculas na extremidade A da câmara para difundir-se na direção da extremidade B do que moléculas para sofrer difusão na direção oposta. Por conseguinte, as velocidades de difusão em cada uma das duas direções são proporcionalmente diferentes, conforme ilustrado pelos comprimentos das duas setas.
Washington. D.C., American Physiological Society, 1955.
Saldana. M, J.: Pathology of Pulmonary Disease. Philadelphia, J.
B. Lippincott, 1994. Wagner. P. D.: Diffusion and chemical
reaction in pulmonary gas exchange.
Physiol. Rev., 57:257, 1977. Wagner. P. D.: Ventilation-perfusion
relationships- Annu. Rev. Physiol., 42:235, 1980. Weibel, E. R.:
Morphological basis of alveolar capillary gas exchange. Physiol.
Rev., 53:419, 1973.